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11/out

Refugiados mulçumanos recebem atendimento médico em campos da Jordânia

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Nove pessoas de cinco estados brasileiros e uma missão: cuidar da saúde de aproximadamente 950 refugiados sírios e iraquianos na Jordânia, em apenas 10 dias. O desafio foi aceito pela técnica de enfermagem Luciana Bueno, que viajou na companhia de dois médicos, dois enfermeiros, um fisioterapeuta e outros três voluntários para as cidades de Mafraq e Hashimi.

A viagem foi organizada pela Junta de Missões Mundiais, e teve o apoio de diversas igrejas brasileiras que, como a Terceira Igreja Batista de Brasília, enviaram voluntários e ofertas. “Nossa igreja levantou uma oferta de U$1.117, com os quais compramos remédios importantíssimos para os refugiados – de aspirina a medicamentos para diabetes e controle de pressão”, conta Luciana.

No total foram U$3,5mil investidos em medicação utilizada em atendimentos feitos das 9h às 18h, em instalações improvisadas em igrejas locais. A religião não foi barreira, apesar de mais de 90% dos pacientes serem mulçumanos. “Eles não se importavam em sermos cristãos. Essa ideia de que mulçumano não gosta de cristão não é verdadeira. Somente os extremistas é que não gostam.” Luciana conta que muitos eram simpatizantes do cristianismo, e até pediam orações.  “Marcávamos horários depois dos atendimentos para conversar e orar.”

Doentes na alma

O principal problema encontrado pelos voluntários foi na esfera emocional. “Você vê que a destruição é das almas, por estarem longe de suas cidades, da família”, conta voluntária que ouviu diversos relatos de perseguição de mulçumanos pelo próprio Estado Islâmico.

Ela explica que na Síria e no Iraque os cidadãos mulçumanos são obrigados a jurar fidelidade ao Estado Islâmico e a contribuir financeiramente para as ações dos grupos. Quando as pessoas se negam a pagar as taxas sofrem perseguição. Por isso a única opção passa a ser a fuga. Deixam tudo para trás e saem do país com a roupa do corpo para salvarem as próprias vidas. “Atendi uma pessoa que teve os dentes e costelas quebradas porque se negou a pagar a taxa”, lembra.

O medo dos conflitos armados também é motivo para a fuga. São diversos os relatos de mães que decidiram ir embora depois que tiveram os filhos mortos por bombas que caíram próximos às suas residências, ou por pisarem em minas espalhadas pelas cidades.

Mas os problemas não acabam depois que saem do país. Luciana atendeu uma jovem de 18 anos que apresentava um quadro avançado de depressão, com pensamentos suicidas. A jovem, já no campo de refugiados, teria sido dada em casamento a um rapaz que comprou seu dote – quantia paga à família da noiva para que seja liberada para o casamento. Mas o novo marido deu carta de divórcio a ela três dias após se casarem, o que é motivo de desonra na cultura mulçumana e geralmente faz com que a mulher passe a se prostituir ou cometer suicídio. “Fiquei muito preocupada com ela, e tentei de várias formas trazê-la para o Brasil.”

Outro caso que impactou a voluntária foi o de um menino com menos de um ano de idade que apresentava marcas de queimadura pelo corpo. A mãe disse que foram acidentais, que a criança teria encostado no narguilé que o pai estava utilizando. “Mas as características dos ferimentos demonstravam que houve pressão entre o objeto e a pele, não pode ter sido acidental.”

Resposta para as necessidades do mundo

Mãe de dois filhos e servidora concursada, Luciana decidiu dedicar as férias para prestar ajuda humanitária e já se prepara para duas viagens no próximo ano – Índia e Guiné Bissau. Tudo começou durante uma viagem à Europa, quando sentiu que o certo seria aliar os passeios ao auxílio ao próximo. “Aprendi com minha que gente tem que cuidar de gente. Hoje não tenho mais ela do meu lado, então procuro fazer o que ela me ensinou.”

Na bagagem, Luciana já guarda passagens pelo interior do Pará e de Goiás, e pela África do Sul – onde prestou assistência a crianças soropositivas. Todas as viagens foram feitas com equipes de saúde, o que a fez resolver dar um novo passo: graduar-se em enfermagem para, em breve, dedicar-se em período integral à ajuda humanitária. “Claro que pode parecer fácil eu falar isso porque tenho um bom salário, carro e casa própria. Nasci em berço de ouro, mas sempre quis cuidar de gente, de fazer a obra.”

Até lá, Luciana tem influenciado os colegas no trabalho que não entendem porque ela deixa de passear em lugares turísticos para ir a locais como a Jordânia. “Eles vivem me perguntando o porque da minha escolha”. Algumas sementes já foram plantadas, e colegas estão se unindo a Luciana em um projeto que desenvolveu dentro do banco onde trabalha, para doação de cabelos para fazer perucas para crianças. Ela própria cortou o cabelo e fez a primeira doação.

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